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Sonhar com uma pessoa que morreu

Você acorda e por alguns segundos ela não morreu. Depois o quarto volta. Não importa se o sonho te deixou em paz ou destruído: a pergunta que vem em seguida é quase sempre a mesma. Era ela mesma, ou era só a minha cabeça? Ninguém pode responder isso por você, e o Sorvatis não vai fingir que pode. O que dá para oferecer com honestidade é o que as pessoas contam, o pouco que de fato já foi medido, e o que um registro mostra depois e uma noite sozinha não mostra.

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A resposta curta

Sonhar com uma pessoa que morreu é uma das experiências mais comuns do luto, e não é veredicto sobre nada: nem sobre como você está aguentando, nem sobre onde essa pessoa está agora, nem sobre o que ficou faltando entre vocês.

Uma pesquisa de 2014 com 278 pessoas enlutadas encontrou que 58% tinham sonhado com alguém querido que morreu, e que esses sonhos eram descritos como agradáveis, como mistos e também como perturbadores. Não são uma experiência só, e é mais ou menos aí que acaba o que dá para tratar como medido.

O que um sonho desses pode tornar visível é como está hoje o vínculo, que continua se mexendo. Se além disso está acontecendo alguma outra coisa nessas noites, não existe instrumento humano capaz de medir. O Sorvatis não vai te dizer que foi recado. E também não vai te dizer que foi só o seu cérebro. Nenhuma das duas dá para provar, e o sentido que aquela noite tem para você continua sendo seu.

Sonhar com pessoa morta é ruim?

É a primeira coisa que muita gente digita, geralmente de madrugada, ainda com o sonho grudado no corpo. E a internet responde na hora, com uma lista pronta: é aviso, é presságio, é alma penada, é dinheiro chegando, é dinheiro indo embora.

Nenhuma leitura fixa de sonho foi demonstrada, e nenhuma delas serve para todo sonho. Sonhar com quem morreu é uma das coisas mais frequentes que acontecem com quem perdeu alguém: uma leitura fixa teria que valer igual para quase todo mundo que já enterrou alguém que amava, e essas noites não se parecem tanto assim umas com as outras.

O Brasil tem as suas leituras espirituais para esses sonhos, e muita gente cresceu dentro delas. O Sorvatis não vai corrigir a sua fé nem vai se apoiar nela: o sentido que essa noite tem para você é seu, e não é papel de um produto decidir isso no seu lugar. O que ele faz é ficar com o que aconteceu na noite: o que você viu, o que você sentiu. Essa é a parte que dá para guardar.

Sonhar que a pessoa morta está viva

Esse é dos que mais confundem. Ela está ali, inteira, fazendo alguma coisa banal, e no sonho ninguém sabe de nada. Às vezes só você sabe, e o sonho inteiro vira a dúvida de contar ou não contar.

Não é preciso ler nada sinistro aí. Uma explicação possível é simples: a pessoa com quem você conviveu durante anos é a viva, e é essa que a memória tem inteira. A notícia é recente; o resto, não.

O que pode se tornar importante é a posição em que o sonho te coloca. Você conta ou fica quieto. Você chega perto ou fica na porta. Esse detalhe muda de um sonho para o outro, e com o tempo ele pode se mover: vale guardar.

Sonhar com pessoa morta falando com você

Quando o morto fala, muita gente conta que o sonho ficou inteiro na memória, e que a frase era do tipo que a pessoa realmente diria.

Isso não é estranho: você carrega o jeito de falar dela como carrega o rosto. Anos de voz, de vícios de linguagem, de coisas que ela dizia quando estava preocupada. Pode ser que o sonho não precise inventar nada, ele tem tudo isso à mão.

O que fazer com o que foi dito continua sendo seu, e o Sorvatis não vai decidir por você se aquilo foi um recado ou não. Mas escreva. Se alguma frase ficou, é justamente a parte que você vai querer ter daqui a dois anos, do jeito que veio, sem o polimento que a memória pode dar nela sozinha.

Por que ela aparece bem, do jeito que era

Muita gente conta que quem morreu com dor, num leito de hospital ou depois de anos de doença apareceu no sonho como era muito antes: de pé, numa cozinha, num carro, na porta de casa.

É uma das coisas que mais aparecem nesses relatos, e pega de surpresa quem achava que ia sonhar para sempre com as últimas semanas. Uma explicação possível é simples: décadas de uma pessoa ficam guardadas em você numa densidade diferente da dos últimos meses dela. Esses meses são recentes e pesam, mas são poucos: dois cômodos, alguns rostos, muita repetição.

Isso importa quando a última imagem que você tem de alguém é uma imagem ruim. Ela não é a única que você carrega.

Sonhar com quem morreu faz pouco tempo

Nas primeiras semanas muita gente descreve sonhos repetitivos e cansativos: a morte de novo, o telefonema, o corredor, procurar pela casa inteira. Ou o pior de todos, que parece o mais gentil: ainda não aconteceu nada e ela está ali, fazendo qualquer coisa.

Acordar desse é um acontecimento por si só. Muita gente descreve como perder a pessoa de novo antes do café.

Nada disso quer dizer que você está fazendo o luto errado. O que o seu luto está fazendo não é coisa que uma página consiga te dizer daqui. O que dá para fazer é guardar esses sonhos, para estar em condições de perceber se eles mudarem.

Sonhar com quem morreu faz muitos anos

E tem os que chegam do nada, dez anos depois, com alguém em quem você não pensava conscientemente havia meses.

Às vezes teve alguma coisa nesses dias que rimou com essa pessoa sem você perceber: um cheiro, o formato de um cômodo, a risada de alguém, uma data num formulário. Pode valer perguntar o que a semana tinha dentro: uma data, a primeira noite numa casa que ela nunca viu, um diagnóstico, um filho chegando na idade que você tinha.

É aqui que ter o registro vale mais do que qualquer interpretação solta. Se os onze sonhos anteriores com o seu pai estão escritos, o décimo segundo deixa de chegar sozinho: ele tem ao lado com que se comparar.

Sonhar com alguém que você mal conhecia

Um vizinho, um colega de trabalho, alguém do noticiário, o pai de um amigo. Morreu, você mal falava com a pessoa, e ela aparece no seu sonho com uma nitidez que não faz sentido nenhum.

Pode valer perguntar se o sonho é menos sobre ela e mais sobre o que a morte dela mexeu em você: a idade que ela tinha, a rapidez, o fato de ninguém esperar.

Não precisa ser falta de respeito, e não precisa ser aviso. Alguma coisa pode ter sido tocada, e o sonho usou a figura que estava mais à mão.

Quando você nunca sonha com quem morreu

Essa é perguntada baixinho e é perguntada muito, e quase sempre tem um medo embaixo: que não sonhar com alguém signifique que o seu luto está errado, ou que a pessoa não está em paz, ou que o vínculo não era o que você achava que era.

Nada disso dá para ler numa ausência. Lembrar de sonho varia muito de pessoa para pessoa e ao longo de uma mesma vida: tem gente destruída por uma morte que nunca sonha com aquele morto, e tem gente de relação distante que sonha direto. Não existe câmbio entre amor e frequência de sonho, e quem te oferece um acabou de inventar.

Se você quer ficar com os que vierem, a resposta prática é sem graça: guarde o registro. Escrever um sonho preserva o que foi lembrado, e é o que permite ver depois o que volta, o que muda e o que desaparece.

Quando o sonho te deixa pior

Nem todo sonho desses é gentil. Alguns acusam. Alguns repetem a morte. Alguns devolvem a pessoa e tomam ela de você outra vez, e alguns derrubam o dia inteiro.

Um sonho amargo com alguém que morreu está entre as coisas que as pessoas contam no luto. Mas tem uma linha que precisa ser dita em voz alta: se os sonhos estão te impedindo de dormir, ou deixando o dia difícil de carregar, isso é motivo para falar com uma pessoa de confiança ou com um profissional qualificado. O Sorvatis registra; ele não cuida. Um registro pode ser uma coisa útil de levar para essa conversa; ele não substitui a conversa.

O que o Sorvatis lê num sonho desses

O símbolo, não. Não existe significado fixo para pai morto, mãe morta, casa, estrada, porta aberta. O Sorvatis não tem dicionário e se recusa a escrever um.

Ele lê a sua evidência, com as suas palavras: quem estava, onde foi, o que você estava fazendo, com o que você acordou. E depois, ao longo das noites, o que volta e o que muda. Uma pessoa que aparece em um sonho é uma imagem. Uma pessoa que aparece em catorze sonhos ao longo de dois anos, em cômodos diferentes, às vezes falando e às vezes calada, é uma coisa que já dá para olhar, e só o seu próprio arquivo pode colocar isso na sua frente.

E continua sendo seu. Os seus sonhos são privados, não são material de mais ninguém, e nada do que você escreve é mostrado para outra pessoa.

Por que uma noite só não basta

Uma noite pode dizer muito. O que uma noite sozinha não consegue mostrar é o que volta, o que muda e o que desaparece com o tempo.

É para isso que serve o registro: não para decidir o que aquela noite quis dizer, mas para que daqui a dois anos ela ainda esteja lá, do jeito que veio, ao lado das outras.

Um sonho que você ainda consegue descrever hoje é um sonho que ainda dá para guardar inteiro. Escreva o de hoje antes que ele amoleça.

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