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Por que sonhamos?

Ninguém consegue dizer com certeza para que serve sonhar, e quem diz está correndo na frente das evidências. O que está estabelecido é mais estreito e mais útil do que uma finalidade: sonhar acontece a noite inteira, com mais densidade na fase REM, e acontece com quase todo mundo; já se sabe o bastante sobre quais partes do cérebro constroem o sonho para saber que uma lesão em algumas delas deixa a pessoa sem sonhar enquanto o sono REM dela continua igualzinho; e o achado mais firme sobre o conteúdo dos sonhos é que eles continuam a vida acordada de quem sonha — as pessoas, os cômodos, o que já está na sua cabeça. É essa última parte que importa aqui. Quer dizer que um sonho não é um recado que chega de fora da sua vida. Ele é feito da sua vida.

Comece com um sonho

A resposta curta

Sonhar é o que a mente faz com a noite. Não é um sinal que alguém te manda nem uma interrupção do descanso: faz parte de como dormir funciona. Acontece várias vezes por noite, em quase todo mundo, e fica mais longo e mais narrativo na fase REM, que ocupa um pedaço cada vez maior de cada ciclo conforme a manhã se aproxima. Até aí não há discussão.

Por que isso acontece continua realmente em aberto. Existem quatro respostas sérias, elas se sobrepõem, e nenhuma ganhou. O que se sustentou melhor do que todas elas é um achado sobre o conteúdo, não sobre a função: os sonhos são feitos do material da vida de quem sonha. E é exatamente por isso que nenhuma resposta geral para por que sonhamos vai te contar coisa alguma sobre ontem à noite.

O que acontece no cérebro enquanto você sonha

O sono anda em ciclos de mais ou menos noventa minutos, e a fase REM — a do movimento rápido dos olhos — ocupa uma fatia cada vez maior de cada ciclo conforme a noite avança. A maior parte dos adultos passa perto de duas horas por noite nela e não lembra quase nada. A REM é o estado ligado aos sonhos longos, vívidos e estranhos do jeito que só história é estranha. Não é o único: quem é acordado fora da REM também conta sonhos, em geral mais curtos e mais chapados, mais parecidos com pensar do que com um filme.

O fato mais interessante é que REM e sonho não são a mesma coisa. Depois de uma lesão em certas regiões — no fundo dos lobos frontais, ou onde o temporal encontra o parietal — tem gente que para de sonhar completamente enquanto o sono REM segue igual. Sonhar é construído por um maquinário específico, e dá para desligar esse maquinário sem encostar no dormir. Seja lá o que sonhar for, não é simplesmente o barulho que um cérebro dormindo faz.

Para que servem os sonhos?

Quatro respostas são levadas a sério, e vale segurar as quatro em vez de casar com uma.

Memória. O sono consolida o que você aprendeu durante o dia; isso está bem demonstrado. Se o sonho em si faz parte desse trabalho, ou se apenas corre ao lado dele, não está resolvido.

Emoção. Parece que uma noite faz alguma coisa com a carga de uma lembrança difícil: a lembrança fica, parte do calor sai. O sonho é o candidato óbvio para o lugar onde isso acontece, e a evidência é sugestiva, não fechada.

Ensaio. Nos sonhos há uma quantidade impressionante de ameaça, perseguição, exposição social e coisa dando errado. Um argumento com muitos anos de estrada diz que isso é treino: um lugar seguro para rodar as situações que importam.

Nada. E existe uma posição séria segundo a qual sonhar não serve para nada: seria o que um cérebro muito ativo produz quando está desligado dos sentidos, e o sentido quem coloca somos nós de manhã.

O Sorvatis não precisa que essa discussão termine, e vale dizer isso com todas as letras. As quatro explicações, incluindo a última, são compatíveis com o mesmo fato prático: o que aparece nos seus sonhos vem da sua vida, e o padrão entre muitos dá para ler mesmo onde uma noite sozinha não dá.

Por que os sonhos são tão estranhos?

Porque as partes do cérebro que conferem se uma coisa faz sentido estão caladas enquanto você sonha, e as que produzem imagem, emoção e memória não estão. Então você aceita uma casa que também é a sua escola. Não estranha que a pessoa com quem está conversando tenha morrido há anos. Você perde a capacidade de se surpreender exatamente na hora em que ela seria mais útil.

A estranheza não é código. É o que a associação faz quando ninguém está supervisionando. Vale guardar isso, porque explica por que a leitura literal falha sempre: o sonho não escolheu aquela imagem para dizer alguma coisa. Ele pegou o que estava por perto.

Todo mundo sonha?

Praticamente todo mundo. O que varia muito é a lembrança. Tem gente que acorda com três sonhos e conta os três; e tem gente que passa anos convencida de que não sonha e começa a lembrar em uma semana, só de escrever uma linha toda manhã. Em laboratório, quem se descreve como alguém que não sonha quase sempre conta um sonho se for acordado direto da REM.

Existem exceções de verdade, e elas merecem ser ditas em vez de escondidas. Um número pequeno de pessoas relata não ter nenhuma imagem de sonho a vida inteira, e em parte são as mesmas que também não formam imagens voluntárias acordadas. E depois de certas lesões cerebrais o sonho para por completo. As duas coisas são raras. Se você acha que não sonha, a explicação bem mais provável é que você não está pegando eles a tempo.

Animais sonham?

Não dá para perguntar, e esse limite é real, não é modéstia. O que dá para dizer: a fase REM aparece em todos os mamíferos estudados e nas aves, com fisiologia bem parecida com a nossa. Animal dormindo se mexe, corre, faz barulho. Em ratos, os padrões de atividade cerebral registrados enquanto aprendem um labirinto reaparecem durante o sono na mesma ordem. Alguma coisa está sendo reproduzida.

Se isso é vivido por dentro — se existe alguma coisa que seja ser aquele rato naquele momento — é uma pergunta que nenhum experimento alcançou. Quem te diz que o cachorro sonha com ele saiu da evidência e entrou no carinho. É um pensamento lindo e não é um achado.

Por que ando sonhando tanto e tão vívido?

É uma das perguntas com que mais gente chega, e quase sempre tem uma resposta pouco espetacular. Vivacidade e lembrança sobem quando o sono fica picado, porque você acorda mais vezes e mais perto da REM. Sobem depois de álcool, quando o efeito passa na segunda metade da noite. Sobem com febre, na gravidez, depois de um período dormindo pouco, e nas semanas mais carregadas que o normal.

Vários grupos de remédio também mudam o jeito de sonhar de uma hora para outra — alguns antidepressivos, alguns remédios de pressão, alguns remédios contra malária — e parar pode mudar tanto quanto começar. Se a mudança veio junto com uma receita, essa pergunta é para quem receitou, não para quem lê sonho.

Nada disso faz uma fase vívida valer menos a pena guardar. Quer dizer que a vivacidade está falando da noite, não do conteúdo. São duas informações diferentes e é facílimo ler a primeira como se fosse a segunda.

Por que a gente esquece quase todos?

Porque o sistema que fixa memória de longo prazo está em boa parte desligado enquanto você sonha, e porque os primeiros trinta segundos acordado são especialmente hostis com o que ainda tinha sobrado. Pegar o celular já basta para terminar o serviço. O Sorvatis tem uma página só sobre por que os sonhos desaparecem ao acordar, e a versão curta é que uma palavra escrita costuma bastar para segurar a noite inteira.

A ciência consegue dizer o que o seu sonho significa?

Não — e vale ser exato sobre o porquê, porque o motivo é mais interessante que a recusa.

A ciência consegue dizer por que se sonha, quando, do que o sonho é feito e o que costuma aparecer nele em muita gente. Isso é conhecimento de verdade e esta página tentou entregar com precisão. O que estudo nenhum consegue fazer é dizer sobre o que era o seu sonho de ontem, porque a resposta não é uma propriedade das imagens. Água não é tristeza. Escada não é ambição. Essas associações existem, mudam de uma pessoa para outra e de um século para outro, e um livro que distribui significado é um hábito muito antigo posto no papel, não um achado.

A posição honesta é mais estreita e mais estranha do que o dicionário e do que dar de ombros: o significado de um sonho, quando existe, mora na relação entre aquele sonho e a vida de quem sonhou. Isso não é um buraco que a ciência vai fechar depois com aparelho melhor. É o formato da coisa.

O que o Sorvatis lê no lugar disso

O Sorvatis não guarda tabela nenhuma de significado de imagem, porque essa tabela não existe. Ele lê a sua versão: o que aconteceu, onde, quem estava, o que você fez, como terminou e com o que você acordou. E depois guarda.

A leitura fica mais precisa quanto mais tempo você usa, por um motivo comum e nada misterioso. Na segunda vez que um cômodo volta ele já não é imagem: é um retorno, e retorno dá para comparar. Quem estava dessa vez. O que você fez diferente. O que tinha mudado na sua vida no meio. Isso é evidência sobre você, e não tem como chegar nisso partindo de uma resposta geral sobre sonhar.

Por que uma noite só não basta

Um sonho sozinho dá para ler, e o Sorvatis lê em vez de te fazer esperar o segundo. Mas o primeiro é um começo. Por que sonhamos é uma pergunta sobre todo mundo, e as respostas estão nesta página. Por que eu sonhei aquilo é uma pergunta que só as suas noites respondem — e só se você guardar.

A resposta geral é de todo mundo. A que fala de você começa com uma noite escrita.

Comece com um sonho